São Francisco do Matapi: fé, marabaixo e agricultura familiar no coração quilombola do Amapá
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6/26/20254 min read


Com pouco mais de 70 habitantes, a Comunidade Quilombola São Francisco do Matapi transforma o calendário religioso em um grande ciclo de devoção, cultura afro-amapaense e trabalho coletivo com a terra e o rio.
A 65 quilômetros de Macapá, às margens do rio Matapi, uma pequena comunidade quilombola mantém viva uma das tradições mais emblemáticas do interior do Amapá. A Comunidade Quilombola São Francisco do Matapi, com cerca de 78 habitantes, organiza todos os anos a Festividade de São Francisco de Assis, um ciclo que une novenário, missa, marabaixo, batuque, agricultura familiar, pesca artesanal e bailes populares em uma mesma narrativa de fé e resistência cultural.
Genuinamente agrícola, a comunidade se estrutura em torno de duas datas que marcam o tempo local: 24 de junho, dia de São João Batista, e 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis. É em torno da pequena Capela de São João Batista, sob os cuidados da Família Almeida — hoje na 6ª geração de organizadores — que se articulam as celebrações religiosas, profanas e comunitárias.
Fé que entra na casa das famílias
A festividade de 2025 foi organizada em duas etapas, entre setembro e outubro. De 24 de setembro a 2 de outubro, o novenário percorreu as casas dos moradores. Cada residência que recebeu uma noite de oração foi cuidadosamente preparada: mesas com flores, imagens de santos, tecidos coloridos e a presença de crianças, jovens e idosos em leitura, cânticos e preces.
Mais do que um rito formal, o novenário transformou lares em pequenos templos, mostrando que a fé, ali, não se limita às paredes da capela. Rezar em família e com vizinhos reforçou laços comunitários, atualizando uma tradição que se renova ano após ano.
Levantação do mastro e missa solene
No dia 3 de outubro, a levantação do mastro marcou o início mais visível das celebrações. O tronco, ornamentado com folhagens, flores, fitas, frutas e a bandeira dos santos padroeiros, foi erguido em esforço coletivo, em gesto que simboliza a união entre o sagrado e o cotidiano. Transmitido entre gerações, o ritual reafirma a identidade da comunidade e a devoção a São João Batista e São Francisco de Assis.
No dia 4, a missa solene em honra a São Francisco de Assis reuniu moradores e visitantes diante de um altar decorado com flores e símbolos cristãos. A celebração litúrgica, com participação ativa dos fiéis em leituras e cânticos, mostrou que o centro da festividade continua sendo a fé, ainda que cercada de manifestações culturais e momentos de lazer.
Ao fim da celebração, a partilha de um café da manhã comunitário, com frutas, pães, bolos, sucos e pratos preparados coletivamente, ampliou o sentido de comunhão: comer junto também é um ato de fé, gratidão e identidade amazônica.
Agricultura familiar como ato de fé
Se a capela representa o coração espiritual, a casa de farinha é o coração da segurança alimentar da Comunidade São Francisco do Matapi. No dia 15 de outubro, o Dia da Agricultura Familiar deu destaque ao trabalho com a mandioca, raiz central na dieta amazônica e na economia local.
Moradores vestidos com camisas da festividade se reuniram para lavar, ralar, espremer, peneirar e torrar a mandioca, em um processo majoritariamente manual. O tipiti, a peneira de tala de buriti e a torração 100% manual revelam um saber tradicional que resiste à passagem do tempo. Cada etapa, do manejo da massa ao fogo que transforma a raiz em farinha dourada, é tanto técnica quanto memória.
Em paralelo, a retirada da pirapitinga do viveiro mostrou a importância da pesca artesanal para a subsistência. O almoço comunitário que se seguiu — com alimentos frutos do mutirão na roça, na casa de farinha e no viveiro — transformou o trabalho rural em banquete de confraternização, onde espiritualidade, cultura e sustentabilidade caminham juntas.
Gengibirra, marabaixo e o Cantinho Tia Sinhá
À noite, a cultura toma o centro do palco. Ainda no dia 15, moradores aproveitaram a força de trabalho reunida para preparar a tradicional gengibirra, bebida artesanal à base de gengibre ralado, açúcar e outros ingredientes locais. Engarrafada ali mesmo, a gengibirra é mais que refresco: é patrimônio imaterial, servida aos brincantes nas noites de marabaixo e batuque, como símbolo de energia, memória e identidade.
No dia 17 de outubro, a noite cultural reuniu sete grupos de marabaixo e batuque em torno da imagem e da oração de São Francisco de Assis. O grupo Tia Sinhá, dono da casa e anfitrião da festividade, abriu o cortejo conduzindo o andor do santo. Ao redor, se integraram grupos como Coração Santo Antônio e São Benedito, Ariri, Pavão, Ilha Redonda, Santa Luzia do Maruanum e Torrão do Matapi, formando uma teia simbólica que une fé, música, dança e resistência afro-amapaense.
O Cantinho do Marabaixo Tia Sinhá, espaço decorado com flores, tecidos coloridos e trajes tradicionais, funcionou como um verdadeiro altar cultural. Ali, o marabaixo foi celebrado, registrado em fotos, vídeos e publicações digitais, conectando passado e presente.
Palco, baile e pirotecnia
A festividade de 2025 também modernizou sua estrutura. A montagem do palco principal, com som, iluminação e telão, transformou o espaço cultural em cenário para shows e apresentações. Banners com estética amazônica e produção midiática em estúdio ajudaram a divulgar a programação, aproximando a tradição quilombola da tecnologia.
A noite do baile, com a cantora e compositora amapaense Alê Moraes e banda, integrou sertanejo universitário e identidade regional sob um céu iluminado por fogos. A pirotecnia e o “paredão” de som, somados à gastronomia preparada coletivamente, fizeram da festa um grande encontro intergeracional, onde jovens, adultos e idosos compartilharam a pista e a mesa.
Segurança, encerramento e continuidade
Para garantir tranquilidade, a festividade contou com atuação da ROTAM e segurança particular, além da presença do Corpo de Bombeiros Militar do Amapá na área ribeirinha, reforçando o cuidado com os participantes nas atividades próximas à água.
No encerramento, o tradicional “romper da aurora” levou grupos de marabaixo e batuque a percorrer as ruas da comunidade, acordando casas ao som dos tambores e convidando todos à celebração final. Um grande café da manhã selou a despedida, antes da derrubada do mastro e do anúncio da festeira de 2026, símbolo da continuidade do ciclo.
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